Nenhum ladrão arromba um cofre vazio. Não por virtude — por aritmética. O esforço, o risco e a cumplicidade só compensam onde há alguma coisa dentro. Se não há o que roubar, não há roubo. A frase parece um truísmo de delegacia. Aplicada ao Estado, é um programa político inteiro.

Antes que alguém a leia do avesso: ela não diz que o pobre está a salvo porque não tem nada, nem que a vítima deveria ter guardado menos. Ela fala do outro cofre — o que se enche com o que foi tirado de você. Cada escândalo que você já leu no jornal tem a mesma anatomia: um pote grande de dinheiro alheio, administrado por quem não o produziu, fiscalizado por quem também quer um pedaço. Mude o partido, mude o nome da operação, mude a cor do malote; a anatomia não muda. O que muda o resultado é o tamanho do pote.

Uma confissão de régua

O canto deste site sobre o assunto diz, sem rodeio, que imposto é roubo. O último ensaio mostrou por quê: no fim de toda guia de recolhimento há um homem autorizado a usar a força contra quem não agrediu ninguém. Pela mesma régua, então, um Estado mínimo que cobra um imposto mínimo ainda rouba. Menos, mas rouba.

Não vou fingir que não. É exatamente aqui que o libertarianismo se divide. De um lado, os minarquistas — Robert Nozick, em Anarquia, Estado e Utopia (1974), é o nome mais sério — defendem que um Estado reduzido a vigia noturno, que só protege a vida, a propriedade e os contratos, é o máximo que se pode justificar e o mínimo de que se precisa. Do outro, os anarcocapitalistas — Murray Rothbard, em A Ética da Liberdade (1982) — respondem que não existe roubo pequeno o bastante para deixar de ser roubo, e que também a segurança e a justiça podem ser contratadas voluntariamente.

Minha posição, para este texto: o Estado mínimo não é o destino. É o degrau. Não se chega ao voluntarismo — a vida inteira organizada por trocas em que todos disseram sim — pulando da carga tributária brasileira para o zero. Chega-se encolhendo o cofre, e cada centímetro encolhido é um centímetro a menos para roubar. Um degrau não pede que você goste dele. Pede apenas que ele leve para cima.

Os princípios por trás do cofre

Quatro ideias sustentam a frase, e nenhuma delas é nova.

A primeira é a não agressão: ninguém pode iniciar força contra outra pessoa ou contra o que é dela. A segunda é a propriedade de si: seu corpo, seu tempo e o fruto do seu trabalho são seus antes de serem de qualquer coletivo. A terceira veio de um francês em 1850. Frédéric Bastiat, em A Lei, chamou de espoliação legal o que acontece quando a lei, criada para proteger a propriedade, passa a ser usada para transferi-la — e deu a definição que ainda não foi superada: o Estado é a grande ficção através da qual todo mundo se esforça para viver à custa de todo mundo.

A quarta é a mais incômoda, porque não é moral — é mecânica. James Buchanan ganhou o Nobel de Economia em 1986 por uma observação simples, a da escolha pública: políticos e burocratas não são anjos que, ao tomar posse, deixam de responder a incentivos. São pessoas comuns diante de um pote enorme. Milton Friedman resumiu o resto: ninguém gasta o dinheiro dos outros, com outros, com o mesmo cuidado com que gasta o próprio consigo mesmo. Some as duas coisas e a corrupção deixa de ser uma surpresa. Passa a ser uma previsão.

Se a corrupção é função do tamanho do pote, o remédio não é procurar políticos melhores. É deixar menos na mesa.

Onde o cofre encolheu

Nenhum país do mundo é um Estado mínimo. Mas alguns chegaram mais perto do que o resto, por tempo suficiente para deixar rastro. Desta vez, ao contrário da página sobre libertarianismo, trago os casos — com os defeitos junto.

Hong Kong, 1961–1971: o homem que não queria estatísticas

John Cowperthwaite foi secretário de Finanças de Hong Kong por uma década e chamava sua política de não intervencionismo positivo. Era mais radical do que o nome: proibiu a própria equipe de coletar certas estatísticas econômicas, para que os números não virassem pretexto para intervir. Manteve a alíquota-padrão em 15% — ninguém, nem o mais rico, pagava mais do que isso sobre a renda bruta. Na sua década, os salários reais subiram cerca de 50% e a parcela da população em pobreza aguda caiu de algo como metade para 15%.

Sessenta anos depois, Hong Kong ainda aparece em primeiro lugar no índice de liberdade econômica do Fraser Institute de 2025.

O defeito: Hong Kong nunca vendeu terra. Toda ela pertence ao governo, que apenas a arrenda — e os prêmios desse arrendamento chegam a ser a segunda maior fonte de receita pública: 16,3% do total em 2020-21, atrás apenas do imposto sobre lucros. O imposto é baixo em parte porque o Estado é o maior senhorio da cidade, com um monopólio que ajuda a explicar um dos metros quadrados mais caros do planeta. E há o defeito maior: o índice que a coloca no topo mede liberdade para comerciar, não para falar. Um lugar que fecha jornais desde 2020 pode ser o mais livre do mundo para abrir uma empresa e um dos menos livres para criticar quem a tributa. Liberdade econômica sem liberdade política é um degrau que pode ser retirado de baixo dos seus pés.

Geórgia, 2004: 21 impostos viram seis

Depois da Revolução das Rosas, um empresário chamado Kakha Bendukidze assumiu a reforma econômica georgiana com uma premissa que dizia em voz alta: o que o Estado não precisa fazer, não deve fazer. O parlamento aprovou em 2004 um novo código tributário que reduziu 21 impostos para seis e instituiu um imposto de renda plano de 12%. O número de licenças exigidas para operar caiu cerca de 90%. A economia cresceu em média 9,3% ao ano entre 2004 e 2007.

Aqui a frase do título aparece quase literalmente. O novo governo dissolveu a polícia de trânsito — famosa por viver de propina de beira de estrada — e recomeçou do zero, digitalizou o pagamento de impostos e cortou o contato entre fiscal e contribuinte, que é onde o suborno mora. O Banco Mundial dedicou um livro inteiro ao caso como exemplo de combate à corrupção nos serviços públicos. Menos balcão, menos carimbo, menos pote: menos roubo.

E a Geórgia fez uma coisa que nenhum outro país ousou. Em 2011 aprovou uma Lei da Liberdade Econômica, em vigor desde 2014, que proíbe o governo de criar novo imposto geral ou elevar a alíquota máxima de um existente sem referendo popular, e que limita o gasto público a 30% do PIB, a dívida a 60% e o déficit a 3%. Uma tranca no cofre.

O defeito: o governo que fez as reformas também foi acusado de abusos graves — o escândalo das torturas em prisões, em 2012, derrubou seu partido nas urnas. E o país, anos depois, virou-se para um autoritarismo de outro tipo. Um degrau construído por um governo que desrespeita pessoas é um degrau construído sobre a mesma agressão que ele diz combater.

Estônia: simples não é o mesmo que pequeno

A Estônia não tributa o lucro que a empresa reinveste. O imposto corporativo só incide quando o lucro é distribuído; enquanto o dinheiro trabalha dentro da empresa, o Estado não toca nele. O imposto de renda é plano, 22%. O aumento para 24% previsto para 2026 foi cancelado pelo parlamento em dezembro de 2025. Pelo ranking da Tax Foundation, é o sistema tributário mais competitivo da OCDE pelo 12º ano seguido. A declaração se faz em minutos, pela internet.

O defeito: a carga estoniana gira em torno de um terço do PIB — tão alta quanto a brasileira. A Estônia prova que um sistema pode ser simples, previsível e respeitoso com quem investe. Não prova que ele seja pequeno. Simplicidade tira do fiscal a oportunidade de extorquir; não tira do cofre o dinheiro que atrai quem quer desviar.

Suíça: o imposto com prazo de validade

A carga tributária suíça foi de 26,9% do PIB em 2024. A brasileira, em 2025, bateu o recorde de 32,4%. A minha opinião sobre isso você já sabe: barrosef.com/libertarianismo.

Mas a diferença não está só no número. Está em dois mecanismos que nenhum político gosta.

O primeiro: os 26 cantões competem entre si. Um cantão que cobra caro demais vê empresas e famílias se mudarem para o vizinho. É o que o economista Charles Tiebout descreveu em 1956 como votar com os pés: quando sair é fácil, o cofre precisa se justificar.

O segundo é ainda mais raro. A Constituição suíça dá prazo de validade ao direito do governo federal de cobrar imposto de renda e IVA, e limita as alíquotas máximas. Para continuar cobrando, o governo precisa pedir ao povo. Pediu em 2018; a autorização atual vence em 2035. Imagine a Receita Federal tendo que perguntar aos brasileiros, a cada quinze anos, se ainda pode existir.

O defeito: 26,9% não é Estado mínimo. A Suíça tem seguro-saúde obrigatório, previdência pública robusta e uma máquina que funciona justamente porque é vigiada de perto. Ela não demonstra que o Estado pode quase desaparecer. Demonstra algo mais modesto e mais útil: que um cofre sob controle direto de quem paga cresce mais devagar.

Próspera: a cidade que só existe enquanto o vizinho deixa

Em Roatán, uma ilha hondurenha, uma empresa montou uma cidade privada sob a lei das ZEDEs — zonas com regras, tribunais e impostos próprios, com alíquotas muito abaixo das nacionais. Foi o mais perto que alguém chegou, neste século, de uma jurisdição desenhada do zero por princípios libertários.

Em 2022 o Congresso hondurenho revogou a lei. Os investidores levaram o país a uma arbitragem internacional que pedia inicialmente US$ 10,8 bilhões — hoje reduzidos para cerca de US$ 1,6 bilhão — e que segue sem decisão final.

O defeito: está no próprio título. Uma ilha de liberdade cercada por um Estado grande depende da tolerância desse Estado, e a tolerância muda a cada eleição. Há também a crítica de moradores vizinhos que nunca foram consultados — e um libertário não pode ignorar o argumento de consentimento quando ele aponta para o seu lado.

Argentina: o degrau que dói

Javier Milei assumiu em dezembro de 2023 com uma motosserra de campanha e a frase de que o Estado é o problema. Em 2024 o país fechou o primeiro superávit fiscal anual em mais de uma década. A inflação anual, que beirou 300% em abril de 2024, caiu para 33,5% em agosto de 2026, com 1,7% no mês, a menor alta em catorze meses. Nenhum governo latino-americano encolheu o cofre tão rápido nas últimas décadas.

O defeito: a pobreza, que havia caído de mais de 50% no início de 2024 para 28,2% no fim de 2025, voltou a subir para 32,3% no primeiro semestre de 2026, e o emprego formal privado encolheu por mais de um ano. Um libertário honesto precisa dizer duas coisas ao mesmo tempo: que a Argentina estava pagando, em inflação, um imposto invisível sobre os mais pobres, e que cortar o gasto não é o mesmo que libertar a economia. O cofre encolheu; o balcão, o carimbo e a carga ainda estão lá.

Os casos que incomodam

Há uma lista de países que costuma aparecer em conversas sobre imposto baixo, e que eu não posso usar sem avisar do que ela carrega.

Singapura tem imposto de renda baixo e um dos PIBs per capita mais altos do mundo. Tem também um Estado que constrói e controla a moradia de cerca de 80% da população, fundos estatais que estão entre os maiores investidores do planeta, poupança previdenciária obrigatória e um regime em que a imprensa e a oposição vivem sob tutela. O imposto é baixo porque o Estado é dono de muito. Isso não é Estado mínimo. É Estado grande com contabilidade diferente.

Emirados Árabes, Mônaco, Ilhas Cayman não cobram imposto de renda de pessoas físicas. Mas vivem de petróleo, de turismo de luxo ou de finanças. Não tributam o cidadão porque o Estado é dono do poço. Os Emirados, aliás, são uma monarquia absoluta — e, quando o poço deixou de bastar, criaram IVA em 2018 e imposto corporativo em 2023. O pote sempre quer crescer.

O Chile dos Chicago Boys é o caso mais citado e o mais contaminado. As reformas liberais dos anos 1970 e 1980 tornaram o país um dos mais prósperos da América Latina. Foram feitas sob uma ditadura que, segundo as comissões Rettig e Valech, matou ou fez desaparecer mais de 2.200 pessoas e torturou mais de 27 mil. Pelo princípio da não agressão, não há o que discutir: liberdade econômica imposta com baioneta não é libertarianismo. É a mesma agressão com outra planilha.

Esses casos não refutam a tese. Refutam o atalho. Um cofre pequeno cercado de soldados, ou um cofre pequeno ao lado de um poço de petróleo, não diz nada sobre o que acontece quando pessoas livres decidem, elas mesmas, deixar menos na mesa.

O que os casos ensinam

Três lições, se tiver que resumir.

A primeira: onde o pote encolheu, o roubo encolheu com ele. A Geórgia não ficou menos corrupta porque trocou de gente — a gente continuou gente. Ficou menos corrupta porque eliminou os balcões onde o dinheiro trocava de mão. É a frase do título funcionando no mundo real.

A segunda: um cofre pequeno não fica pequeno sozinho. Precisa de tranca. A Geórgia pôs a tranca numa lei que exige referendo. A Suíça pôs na Constituição, com prazo de validade. Sem tranca, o pote cresce — como cresceu no Brasil, que fechou 2025 com a maior carga tributária da série histórica e ainda encontrou espaço para abastecer um fundo que financia a propaganda de quem decide o tamanho da próxima guia.

A terceira: o atalho autoritário contamina o degrau. Todo país que encolheu o cofre com força emprestada da ditadura deixou uma conta a ser paga em outra moeda. O degrau só vale se for construído pelo mesmo princípio que promete: ninguém dá o primeiro golpe.

Mais um degrau

Volte ao cofre vazio. O ladrão não o arromba — e não porque se converteu, mas porque não compensa. Agora imagine um Estado cujo cofre fosse tão pequeno que ninguém se candidataria a nada para chegar perto dele. Sem fundo eleitoral para disputar, sem estatal para aparelhar, sem obra superfaturada para inaugurar. Imagine campanhas feitas por quem quer servir, porque não haveria mais nada para levar.

Isso é o Estado mínimo. Não é o fim da história. Um cofre pequeno ainda é enchido à força, e o libertário não esquece isso. Mas é o ponto a partir do qual a próxima pergunta fica visível: se o cofre já é tão pequeno, se a segurança, a justiça e a estrada já podem ser contratadas por quem as usa — por que ainda precisamos de um cofre?

Essa pergunta é o próximo degrau. Por ora, basta subir este. Se não há o que roubar, não há roubo. A tarefa é deixar cada vez menos.


Referências